31/10/2014 - Entrevista com os pilotos vítimas de sequestro: “Pensávamos só na nossa família”

JORNALISTA - Como você classifica estes últimos dias que passaram na mão de sequestradores?

RODRIGO – Neste momento, é difícil achar uma palavra para classificar esta situação toda. O estado emocional é muito complicado. A gente fica sem saber o que vai acontecer no final. Agora não tenho condições emocionais para classificar tudo isso com uma palavra.

JORNALISTA - Eles foram rudes com vocês durante este período?

RODRIGO - Não foram rudes. A princípio, só apontaram a arma no momento da abordagem.

JORNALISTA - Eram quantos sequestradores?

RODRIGO - Eram dois.

JORNALISTA - Como foi a liberação de vocês?

RODRIGO - Na verdade, eles liberaram a gente para sair, mas nós fomos por conta própria, porque estava começando a ficar um pouco perigoso e nós resolvemos sair por conta própria. A gente caminhou um tanto pelo mato, depois seguimos uma trilha que não sabíamos aonde iria dar. Tínhamos medo de pedir informação porque não conhecíamos a região, poderia ser perigosa para nós. Até que conseguimos uma carona. No caminho tivemos que parar inúmeras vezes, porque não tinha água e estava muito quente. Descansávamos nas sombras que encontrávamos

EVANDRO - Somente no rendimento (sic) eles apontaram a arma para nós. Após nós decolarmos, voamos aproximadamente uma hora e já pousamos na Bolívia. A partir daí, tiraram todas as bagagens dos passageiros que estavam na aeronave e devolveram as nossas bagagens. Apenas os nossos celulares e carteira é que ficaram com eles, que foram devolvidos a nós no próximo dia também. As nossas coisas foram todas devolvidas.

JORNALISTA - Em que vocês pensaram durante todo este período?

EVENDRO - Não consegui pensar em computador ou celular. Só na minha família e em como conseguir voltar. Pensei que iria morrer a todo o momento.

JORNALISTA - Eles eram de que nacionalidade?

EVANDRO – Os dois eram brasileiros, falavam português.

JORNALISTA - Como foi o cárcere?

EVANDRO – Em nenhum momento fomos maltratados, nem mesmo verbalmente. Ficamos em vários lugares - em mato, casa, rancho, fazenda...

JORNALISTA - Eles informaram para que o avião seria utilizado?

EVANDRO – Nós não sabemos. A demora foi referente à negociação entre os que roubaram o avião e os possíveis compradores. Demorou muito. No final, eles acabaram se desentendendo entre eles. Foi aí que eles deixaram a gente sair, porque já estava ficando muito perigoso.

JORNALISTA - Com relação à alimentação, como foi?

EVANDRO – A alimentação, quando estávamos na casa, era até razoável, dentro das condições em que estávamos. Era comida normal, pois tinha uma mulher que cozinhava. Mas teve vezes que tivemos que comer somente arroz branco com copo descartável. Mas no geral, não chegamos a passar fome.

JORNALISTA - Vocês sabem por quanto eles queriam vender a aeronave?

EVANDRO – Não!

JORNALISTA - Vocês saíram fugidos?

EVANDRO – Não, saímos com o consenso deles. Quando houve o desentendimento com o comprador, eles resolveram manter os três mecânicos deles como reféns, o que irritou o comprador. Foi aí que nós chamamos eles para conversar, porque estava ficando muito perigoso para nós. Falamos para eles deixarem a gente sair porque se não o comprador iria matar todo mundo. Aí ele disse para nós: “siga o se coração e faça o que vocês acharem que devem”.

JORNALISTA - Vocês acreditavam que voltariam?

EVANDRO - Eu acreditava que se ele tivesse vendido esta aeronave antes, ele traria a gente de volta, que não iria fazer mal algum conosco. Porém, na hora da nossa saída lá, foi muito arriscado, pois se o pessoal da região soubesse que os pilotos brasileiros estavam sendo liberados, eles provavelmente nos pegariam.

JORNALISTA - Em que momento que vocês sentiram, de fato, que estavam libertados?

EVANDRO – Somente quando chegamos a Guajará-Mirim. Foi o renascimento.

JORNALISTA - Como foi até vocês chegarem lá?

EVANDRO - Nós caminhamos no primeiro dia por três horas até pegar no sono, e na quarta-feira caminhamos das três da manhã até umas seis e pouco, que foi quando conseguimos carona.

JORNALISTA - É uma região de narcotráfico? Como era esta região?

EVANDRO – Sim! Era uma região igual ao Pantanal, onde não tem água.

JORNALISTA - Vocês pilotaram alguma vez fazendo transporte de drogas?

EVANDRO – Não! Só fomos com a aeronave em três pistas.

JORNALISTA - Foi feita alguma modificação na aeronave?

EVANDRO – Sim, mas nós não vimos.

JORNALISTA - Vocês acreditam que a aeronave havia sido encomendada?

RODRIGO - Acredito que não. Mas não sabemos.

JORNALISTA - Vocês tiveram contato com a polícia de lá?

RODRIGO - Não tivemos nenhum contato com a polícia boliviana.

 

 

Escrito por Kamila Arruda / Diário de Cuiabá

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