31/10/2014 - Por muito pouco uma milícia armada não mata a tiros e queimadas mais de 50 mendigos em Cuiabá; Estado salvo de virar manchete internacional

Já vi todos os tipos de violência, pois afinal de contas eu perambulo há mais de 30 anos pelas ruas, dormindo em calçadas, em becos, nas celas imundas das delegacias de Polícia, mas sinceramente, eu já tinha apanhado da Polícia, mas agora eu fui muito espancado, muito mesmo. Mas graças a Deus eu estou vivo, como estão vivas todas as pessoas, principalmente as crianças que estavam naquele local

 

Por muito pouco, Cuiabá, a Capital de Mato Grosso não entra para a história como palco de uma das maiores chacinas do País com repercussão internacional. Igual ou pior do ocorrido a chacina da Candelária no Rio de Janeiro anos atrás. Um grupo de pessoas armadas que se intitulou como policiais civis integrantes de uma “milícia”, inclusive com dois carros que se assemelhavam a duas viaturas oficiais invadiram o acampamento onde se regiam mendigos, alcoólatras, usuárias em drogas e famílias carentes, inclusive crianças e atearam fogo em tudo.

 

 Já era noite de uma sexta-feira nos primeiros dias deste mês de outubro, quando as mais de 50 pessoas que dormem em um local abandonado próximo à Estação Rodoviária de Cuiabá, no bairro Alvorada acordaram com os gritos de um grupo de homens armados. Uma espécie de “milícia”, obrigando que todos saíssem correndo, caso contrário seriam mortos.


Mesmo assustadas e com muito medo, pois os milicianos chegaram a disparar mais de 20 tiros, a maioria para o alto, as pessoas ainda tentaram dialogar. Algumas pediam até pelo amor de Deus para que não fossem mortas, principalmente as crianças, mas não teve jeito.


Revoltados e com muita fúria, os supostos milicianos armados começaram a espancar as pessoas e atear fogo em seus objetos, principalmente em suas roupas e colchões velhos. Assustadas e apavoradas, as pessoas começaram a gritar e a correr, quando os homens também deixaram o local às pressas, possivelmente também com medo da chegada de outras pessoas e, principalmente da Polícia.


“Apesar de não ter nada, eu perdi tudo. É que dias antes eu ganhei roupas, sapatos, chinelos e até cuecas usadas, mas os caras queimaram tudo. Inclusive um deles quase me mata, pois disparou alguns tiros em minha direção, mas como estava escuro as balas se perderam sem atingir ninguém, graças a Deus”, contou um sobrevivente.


O mesmo homem que não tem residência fixa e sobrevive de cuidar de carros pelas principais avenidas de Cuiabá com o uso de papelão, conta lá não estavam apenas mendigos, desocupados, alcoólatras e usuários de drogas. Lá também, segundo ele, estavam algumas famílias que vieram para Mato Grosso tentar a sorte, mas que sem dinheiro e sem emprego estavam morando na rua.


“Com certeza a ideia deles era matar todos nós dormindo, a tiros e queimados. Só não o fizeram porque um deles fez barulho e acordou algumas pessoas que começaram a gritar por socorro. Mesmo assim eles ainda dispararam mais de 20 tiros, espancaram a maioria das pessoas e ainda atearam fogo nos objetos das pessoas que ficaram praticamente sem nada”, lamentou um morador de rua.


Os caras estavam bravos. O barulho que um deles fez e acordou algumas pessoas evitou que todos nós fossemos mortos a tiros e queimados. O que é pior, dormindo, inclusive várias crianças. Eu já acreditava em Deus, mas agora eu tenho mais fé nele. Pois o que aconteceu foi um milagre. Deus nos salvou e livrou Cuiabá e Mato Grosso de uma repercussão negativa internacional”, alertou o morador de rua que concluiu o segundo grau, mas que virou mendigo e andarilho depois de entrar para o mundo das drogas.

 

 E ele conclui: “Já vi todos os tipos de violência, pois afinal de contas eu perambulo há mais de 30 anos pelas ruas, dormindo em calçadas, em becos, nas celas imundas das delegacias de Polícia, mas sinceramente, eu já tinha apanhado da Polícia, mas agora eu apanhei mais. Mas graças a Deus eu estou vivo, como estão vivas todas as pessoas, principalmente as crianças que estavam naquele local”.

 

 

José Ribamar Trindade