Elismar Bezerra fala de marketing político e tragédias da natureza 18/01/2011 10:22

Meses atrás estávamos todos nós agoniados com a estiagem, quando a sequidão mandava centenas aos hospitais e a fuligem e a fumaça invadiam nossas janelas e sufocava a respiração. Tínhamos a impressão que o mundo estava prestes a pegar fogo. Ansiávamos por chuvas, os meios de comunicação, todos, destinaram preciosos e caros minutos e espaços às matérias e notícias sobre as possibilidades de chuvas; especialistas eram entrevistados, faziam diagnósticos e prognósticos, culpados eram indicados, etc. e tal. Mesmo em Chapada o tempo ficou irrespirável.

Conforme as chuvas começaram a cair, outros assuntos foram tomando conta dos noticiários, vieram as campanhas eleitorais, as eleições, as festas dos vitoriosos, composição de governos, os festejos de Fim de Ano e do Ano Novo. Esquecemos. De fato, as primeiras chuvas aliviaram o viver, aplacaram a sede da terra, substituindo a rigorosa estiagem pelo verdume vigoroso dos brotos no cerrado; foram fazendo a beleza da relva ir substituindo o solo encarvoado, a folhagem nova a se impor no lugar do mato ressequido. A vista acostumou-se logo à serenidade e à leveza do verde, esquecendo-se do tempo ruim.

As chuvas caíram generosamente. As águas foram enchendo os leitos de rios e riachos, encobrindo suas intimidas expostas pela seca, subindo as barrancas, lambendo raízes, revirando árvores, alargando os leitos. Córregos e riachos intermitentes revivificaram a correr ligeiramente para o destino das grandes bacias e, destas, para a imensidão dos oceanos salgados. É que as águas sempre voltam para seus antigos caminhos, com suas lembranças de tempos imemoriais buscam-nos vigorosamente, sem freios, resolutas, incontroláveis. A memória das águas não pode ser enganada e na sua “função” de levar o sal da terra para os mares, se lhes fecham os caminhos, irrompem aos turbilhões por outros, refazendo leitos para seguir o inolvidável destino.

As telas da televisão mostram agora o soluço de homens e mulheres perseguidos historicamente pela dor de todas as tragédias já vivenciadas. Dentre esses não há homens de negócio, executivos das grandes corporações, senhoras consumidoras dos mais destacados produtos de luxo, moçoilas viciadas em bebidas caríssimas, nem rapazes brancos cheios de músculos e óculos de grife e quase nenhum cérebro; nenhum governante há entre eles. Só a gente escorraçada dos bons endereços, enxotadas das áreas salubres e bem cuidadas dos aglomerados urbanos. Sua dor é só sua, como sempre foi. A tragédia, então, tem um caráter classista: vitima os trabalhadores mais pobres.

Os governantes de fato, não esses que se elegem com os instrumentos do moderno marketing e quase nenhum projeto de governo para este ou aquele cargo, estes são só os prepostos dos que decidem e mandam na sociedade desde seus palácios e escritórios privados; os dirigentes de fato da sociedade sabem que há regiões de uma cidade em que não se pode construir nada, ou quase nada. Tanto sabem que nesses espaços, ou regiões, eles não edificam nem suas casas, nem suas empresas. Mas, para que seus espaços, suas cidades dentro da cidade, não sejam invadidos e desqualificados pela pobreza, mandam-na para os arrabaldes, para os lugares insalubres e de risco. O governo, o conforto e a segurança, tem um caráter de classe: pertencem aos que são proprietários dos meios de produção e, assim, comandam os processos produtivos e governamentais.

Desse modo, não são sinceras as afirmações dos prepostos (prefeitos, governadores, etc.) dos governantes de que tais e quais obras resolverão o problema das enchentes aqui, em São Paulo, ou alhures. Verdadeira seria a decisão de re-fundar a cidade, redefinir suas áreas habitáveis bem como aquelas destinadas aos desígnios da natureza, o que implicaria na necessidade de desativar e demolir bairros inteiros, removendo dezenas de milhares de pessoas.

Uma decisão dessas equivale a reconhecer o direito de bem-morar e viver para quem, até hoje, a civilização burguesa não reconheceu como gente, senão como força de trabalho e produção de mais-valia. Os governantes não poderão reclamar quando esses trabalhadores mais pobres, bebendo da mesma fonte que Brecht, que alertava: “reclamam da violência das águas, mas se esquecem da opressão das margens”, e, seguindo o ensinamento das águas, se irromperem contra esse estado de coisas levando nesse turbilhão toda aquela civilização e suas perversidades.

Elismar Bezerra Arruda, professor

Blog da Sandra Carvalho