Índio Karajá morre de cirrose. Cacique diz que alcoolismo continua sem controle, 17/01/2011

Atitude Tocantins

Continua uso indiscriminado de álcool e drogas nas aldeias Karajá de MT e TO

Um índio da nação Karajá morreu na semana passada vítima de cirrose hepática. Ele era primo do cacique Iwraro Karajá, cuja aldeia fica no município de Lagoa da Confusão, na Ilha do Bananal, estado de Tocantins, divisa com São Félix do Araguaia, em Mato Grosso. O cacique é taxativo: “E relação à questão de bebidas alcoólicas nas aldeias, até agora não vi resultado positivo. Não diminuiu. Pelo contrário, continua aumentando. O índio continua bebendo. Isso é preocupante”.

 

Iwraro lamenta a morte do primo, mas tem uma opinião muito definida em relação ao consumo de álcool. “Deus fez a água para beber, o álcool é bebida de cão, queima no ser humano, nossos irmãos estão morrendo sem controle”.

 

Do ponto de vista do líder Karajá, as reuniões realizadas no final do ano passado pelo Ministério Público com representantes da nação dos dois estados em São Félix do Araguaia não está obtendo resultado negativo. Ele enaltece a iniciativa e preocupação do MP, porém, diz com propriedade que “palestra, palestra, reunião, reunião, não resolve”.

 

Tanto do lado de Mato Grosso, na região do Araguaia, quando de Tocantins existe um grande quantidade de aldeias Karajá cuja população tem afinidade, frequentam os dois territórios e também tem em comum o grande consumo de álcool e drogas. Daí a realização do seminário envolvendo autoridades e lideranças indígenas do dois estados.

 

Rogério Franco

Cacique acha que trabalho deve ser preventivo, começando por crianças e adolescentes

O cacique Iwraro Karajá é vereador em Lagoa da Confusão (TO). Anos atrás desenvolveu um trabalho que consistia em reunir grupos de jovens de sua nação para conversar sobre vários assuntos, dançar, trabalhar e fazer artesanato. Ele acredita que dessa forma é possível prevenir e coibir a dependência química nas aldeias. Porém, diz que foi muito criticado e acabou desistindo do projeto. “Diziam que eu queria ganhar dinheiro em cima dos meninos, mas eu estava querendo tirar eles do caminho errado”.

 

Mas Iwraro quer retomar sua luta. Tem projetos para fazer escolinhas dentro das aldeias. “Os jovens não estão fazendo nada, têm a cabeça fazia. Como dizem por aí, cabeça vazia é casa do diabo. Precisamos ocupar a cabeça dos jovens, adolescentes, ensinar a fazer artesanato, jogar bola”

 

 

Foto: Sandra Carvalho

Envolver as crianças em esporte, artesanato e trabalho seriam alternativas

 

O cacique acha difícil tirar o índio adulto do alcoolismo e acredita que a saída é evitar desde pequeno que o Karajá conheça o álcool. “Quero mexer com aqueles que estão nascendo, crescendo”, revela a liderança.

 

Seminário - Ao final do seminário promovido pelo Ministério Público de Tocantins em outubro passado, e que foi organizado após assassinado ocorrido na aldeia Santa Isabel, foram definidas ações visando coibir o consumo de álcool nas aldeias Karajá de Tocantins e Mato Grosso, como toque de recolher e inclusive a criação de uma milícia formada pelos próprios indígenas. Nenhuma dessas ações estaria sendo colocada em prática.

(Entrevista de Vanessa Lima e texto de Sandra Carvalho)

17/01/2011,  11:41